sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Olhai os lírios do campo


O médico sai do quarto no. 122. A enfermeira vem ao seu encontro.
- Irmã Isolda - diz ele em voz baixa -, avise o doutor Eugênio. É um caso perdido, questão de horas, talvez de minutos. E ela sabe que vai morrer...
Silêncio. Uma golfada de vento atravessa o corredor. Ouve-se o ruído seco duma porta que bate. A irmã de caridade sente um calafrio, lembrando-se da madrugada em que morreu o paralítico do 103; a enfermeira de plantão lhe contara horrorizada ter sentido o sopro gelado da morte entrar no quarto do doente.
- Ele está na casa da família, doutor?
- Não. Telefone para a chácara do sogro, em Santa Margarida. Diga ao doutor Eugênio que a Olívia quer vê-lo. Talvez ele ainda possa chegar a tempo...
Encolhe os ombros, pessimista. Acende um cigarro com dedos um tanto trêmulos.
Irmã Isolda caminha para o fundo do corredor, entra na cabina do telefone, disca para o centro.
- Alô! Alô! Interurbano? Aqui é o Hospital Metropolitano.
As lágrimas lhe escorrem pelo rosto.
"... sobreveio uma hemorragia...", diz a voz velada e distante.
Como se tivesse recebido a mensagem de desgraça primeiro que o cérebro, o coração de Eugênio desfalece, suas batidas se tornam espaçadas e cavas.
"... O doutor Teixeira Torres diz que é um caso perdido. Ela sabe que vai morrer... pediu para vê-lo..."
Eugênio sente essas palavras com todo o corpo, sofre-as principalmente no peito, como um golpe surdo de clava. Uma súbita tontura lhe embacia os olhos e o entendimento. Deixa cair a mão que segura o fone. Só tem consciência de duas coisas: duma impressão de desgraça irremediável e da pressão desesperada do coração, que a cada batida parece crescer, inchar sufocadoramente. A respiração é aflitiva e desigual, a boca lhe arde, o peito lhe dói - é como se de repente lhe tombasse sobre o corpo toda a canseira duma longa corrida desabalada. Pendura o fone num gesto de autômato e dirige-se para a janela, na confusa esperança de que alguém ou alguma coisa lhe grite que tudo aquilo é apenas um sonho mau, uma alucinação.
O sol da tarde doura os campos. O açude reluz ao pé do bosquete de eucaliptos. Mas Eugênio só enxerga os seus pensamentos. E dentro deles está Olívia, pálida, estendida na mesa de operações, coberta de panos ensangüentados. "Ela sabe que vai morrer... pediu para vê-lo..." Ele precisa ir. Imediatamente.
Uma voz infantil flutua no silêncio da tarde, num grito prolongado. É o rapazito que vai dar de beber a uma vaca malhada, tangendo-a para a beira do açude. As imagens do animal e da criança se refletem na água parada. Paz - pensa Eugênio -, a grande paz de Deus de que Olívia sempre lhe falava...
De novo o silêncio, e uma sensação de remorso, a certeza de que vai começar a pagar os seus pecados, a expiar as suas culpas.
Os olhos de Eugênio se inundam de lágrimas. Passam-se os segundos. Aos poucos a respiração se lhe vai fazendo normal e o que ele sente agora é uma trêmula fraqueza de convalescente.
Mas da própria paz dos campos e da idéia mesma de Deus lhe vem de repente uma doida e alvoroçada esperança, que lhe toma conta do ser. É possível que Olívia se salve. Seria cruel demais se ela morresse assim. Acontecem milagres - ele se lembra de casos...
Apanha o chapéu e precipita-se para a escada. Mas por que se detém de súbito no patamar, como se tivesse encontrado um obstáculo inesperado? Tem aguda consciência dum sentimento aniquilador: a sua covardia, aquela imensa e dolorosa covardia num momento em que devia esquecer tudo e correr para junto de Olívia.
Fica um instante parado, amassando o chapéu nos dedos nervosos. Sua mulher está lá embaixo no jardim e agora ela pode descobrir toda a verdade... Ele precisa inventar uma desculpa para aquela viagem precipitada. Olívia está agonizante, seria monstruoso deixá-la morrer sem lhe dizer uma palavra de carinho, sem ao menos lhe pedir perdão.
E no instante mesmo em que formula esse pensamento, Eugênio sente que seu orgulho e a sua covardia não lhe permitirão esse gesto de humildade diante de estranhos.
Meu Deus, mas eu preciso ir, custe o que custar, aconteça o que acontecer!
Começa a descer a escada devagar... Imagina-se no hospital. Olívia estendida na cama... O dr. Teixeira dando explicações friamente técnicas. Os outros... Olhares de quem tudo sabe... Cochichos... Quem? Amantes... Ah! Ele é o doutor Eugênio Fontes, casado com a filha daquele ricaço, o Cintra, conhece?
Eugênio agarra com força o corrimão, o coração a bater-lhe com desesperada fúria.
Lágrimas quentes lhe escorrem pelas faces. Ele as enxuga, todo trêmulo, e caminha para o jardim, gritando:
- Honório! - O chofer aparece. - Tire o carro depressa. Precisamos ir à cidade numa corrida. É um caso urgentíssimo.
Eunice lê no jardim, sentada à sombra dum amplo guarda-sol de gomos vermelhos e azuis.
- Preciso ir à cidade a toda pressa - diz-lhe Eugênio, esforçando-se por dominar a voz.
(...)
O auto põe-se em movimento, passa o grande portão da chácara e ganha a estrada real.
- A toda velocidade, Honório!
Sem se voltar, o chofer responde:
- Quando a gente entrar na faixa de cimento, vou embalar o carro pra noventa.
A luz da tarde é doce e tristonha. O gado pasta nos campos, um quero-quero solta o seu grito estridente, um cachorro late longe.
Eugênio sente vontade de saltar para o banco da frente e confiar a sua angústia e os seus segredos ao chofer. No fundo ele sabe que pertence mais à classe de Honório que à de Eunice. Nunca o pôde tratar com a superioridade com que a mulher e o sogro lhe dão ordens, como se ele fosse feito duma matéria mais ordinária, como se tivesse nascido exclusivamente para obedecer.
- Precisamos chegar à cidade em menos de três horas, Honório. É uma questão de vida e de morte.
Eugênio cerra os olhos. Olívia pálida, estendida na cama, morta... 

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